Para sempre, Ana Marly!

Desde que aprendi a ler aos 6 anos (incompletos), eles, os LIVROS, me acompanham… meu Pai um leitor compulsivo me deixou como herança o amor pela leitura…

Ana Marly Jacobino.

 

Piracicaba amanheceu triste. Aos vinte minutos da madrugada deste dia vinte e um de novembro, faleceu uma das mulheres mais apaixonadas pela literatura que já vi: Ana Marly Jacobino. Fenômeno de força, de dedicação e de amor à literatura e – acima de tudo – à vida. Há décadas lutando contra um câncer, Marly fazia de seu amor pelas palavras a sua terapia.

Mulher de esperança inquebrantável, de coragem absurda, Marly venceu suas batalhas e derrotou o câncer e suas insistentes recidivas. Afirmo que ela derrotou o câncer, sim, porque desde que eu era menino – e isso já faz certo tempo – vejo Marly lutando contra seu mais terrível algoz. E, desde aquela época, acostumei-me também a vê-la vencendo a doença com larga vantagem – apesar das marcas que suas lutas deixavam por seu corpo. Agora, não foi diferente. Marly virou história, literatura, arte. E a arte não morre nunca. O resto é matéria.

Nunca vi Marly triste. Sua alegria era de um barulho arrasador, desses movidos a grandes turbinas de um desejo doente de se sentir viva e atuante. Tudo o que nos vinha dela era em excesso. Excesso de alegria, excesso de atenção, excesso de amor pelas palavras, excesso de amor por sua família, excesso de amor pelos animais, excesso de amor por seu time do coração: o XV! Nada podia ser para depois. Nada podia ser sem intensidade. Tudo era para hoje e pleno de um brilho intenso, solar, diurno, visceral.

Sua paixão pela literatura era verdadeira. Marly nunca fez da arte literária um adorno social – como muito se vê por aí. Nunca. Marly não se valia do que gostava de ler e de escrever para parecer melhor do que alguém. Marly não se anunciava assim. O gosto pelas letras, pelo texto literário, pelas palavras era nascido no mais genuíno amor. E isso bastava. Quantas vezes vi e ouvi Marly vibrando ao recitar um verso, por mais ingênuo que fosse, como se ela estivesse em um estádio, marcando um gol diante de uma arquibancada lotada.

De seu amor pela literatura, nasceu o seu Sarau Literário Piracicabano. Mesmo debilitada, Marly mantinha o Sarau vivo e atuante. Seu cuidado na preparação de cada encontro mensal era único. E sua guerra pela manutenção e continuidade de seu projeto maior era infinita. Ao longo dos anos, o Sarau Literário foi deslocado desse e daquele ponto da cidade – sempre por questões alheias à necessidade de se apoiar a cultura na cidade. Da extinta Sala 2 do Municipal, passando pelo Museu Prudente de Moraes e Auditório da Esalq, o Sarau foi sendo despejado e acolhido, despejado e acolhido. Mas tendo sempre à frente sua estrela de maior brilho e grandeza: Ana Marly Jacobino.

Como estrela que é – feita não só de luz, mas, em especial, feita de palavras – Marly subiu aos céus macunaimicamente. É claro! Porque não poderia ser diferente! Para o Sarau do Oriente Eterno, que agora ela deve estar organizando, Marly ganhou sede que não muda mais. E, se bem a conheço, ela já deve estar rasgando os ares com sua gargalhada fácil e contagiante, correndo apressada com papéis nas mãos, prontos para serem transformados nos famosos “cadernos” do Sarau. Sim. Deve estar doidinha, feliz por reencontrar amigos e parentes (a “parentalha”, como ela gostava de dizer). E, se assim a permitirem, deve é estar tietando a valer os nomes maiores da literatura brasileira e mundial que, certamente, deve também estar afoitamente procurando por lá. Tenho certeza!

Um beijo, Marly!  Madrinha.

Alê Bragion.

 


 



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