Pira Porteña

Sempre que o falso inverno piracicabano dá seus ares pela Noiva da Colina, me ponho a sentir as sensações sinestésicas da música de Piazzolla – ou, mais precisamente, sinto o frio e o vento cortantes emanados pelo “Invierno Porteño,” da peça “Las Cuatro Estaciones Porteñas,” a rodar na vitrola. É claro que não podemos, nem de longe, comparar o frio que chega a Piracicaba ao que sobe das geleiras, pelo polo, e adentra aos Pampas. Mas a sonoridade multissensorial del invierno piazzollano pode ser percebida na imagética composição das neblinadas manhãs juninas estendidas aqui por onde o peixe para, em suas frias noites sem nuvens e de céu de estrelas, no aconchego de alguns poucos, quase raros, mas simpáticos cafés – os quais, nesta época do ano, passam a ser um pouco mais habitados.

Nunca estive em Buenos Aires – ao menos fisicamente. Mas me percebo andando por suas ruas charmosas, a contemplar seus edifícios antigos – de arquitetura tipicamente europeia – que despontam pelo burburinho da cidade, toda vez que ouço os primeiros acordes do mestre revolucionário do tango argentino. O som de suas introdutórias escalas ascendentes – quase sempre em semicolcheias, cortadas brusca e sincopadamente por acordes sequenciais –, a repetição de uma base harmônica que salta – a pequenos pulos – da direita para a esquerda do piano, até encontrar o grave quase total ao final das teclas, a melodia aguda – às vezes trêmula, outras vezes longa e eternamente contínua – compõe um cenário sonoro que me transportam para um país que – apesar da proximidade continental – apenas conheço por fotos, pela televisão ou ainda dos livros de Borges e Cortázar.

Habito, assim, a paisagem sonora de Piazzolla. Suas vielas cheias de tango, seus becos repletos de majestosos contrapontos, suas livrarias pendendo a mágicos glissandos. Freud declarou certa vez, em seu polêmico e intrigante artigo intitulado “O Moisés de Michelangelo” (do original em alemão Der Moses Des Michelangelo), que a música era incapaz de lhe dar prazer – uma vez que ela lhe despertava emoções às quais não conseguia, racionalmente, explicar. A afirmação – que custou a Freud a equivocada pecha de um não apreciador de música (fato contestado por alguns de seus biógrafos mais próximos) – não deixa de ter suas raízes fincadas no solo das sensações do inexplicável dos sentidos. Por isso, ouvindo no ar piracicabano os sons de um invierno porteño clandestino, comungo com Freud do destino em estranhamento provocado pela confusa mistura que a música – no caso em específico, para mim, a de Piazzolla – evoca. Afinal, de onde viriam seus sinos, seus tinos e desatinos em apaixonantes concertinos que me trazem uma Buenos Aires dantes nunca vista nem assim sentida?

Aumento o volume da velha vitrola em que roda um LP argentino. Pela janela da manhã ainda sem se fazer dia, escuto a melodia lenta das ruas nubladas do inverno piazzollado piraportenho. Seu vibrato lento, grave, seu raspado arco em fricação quase sensual sobre as cordas. Preparo um café e a infusão aquossonora se torna mais aguda. Um crescendo parece me levar direto ao bairro da Boca, às casas de milongas, ao serpenteado arpejante das pernas das dançarinas de finos e pretos saltos altos. Súbito, o movimento acelera. Tudo parece agora o outro lado da cidade sob o fog da fumaça de meu café. Os violinos se apressam em curvas rápidas, há lembranças efêmeras até mesmo do inverno de Le Quattro Stagioni, de Vivaldi. Novo súbito e tudo descansa mais uma vez numa melodia marcante feita de sangue e de rosa, vermelha, mas não quente.

À última volta do disco, retorno com ele ao porto seco de meu destino. À minha Piracicaba portenha, particular, sonora, telúrica. Volto ao inverno dos meus sonhos. Ao mágico presente construído sobre uma realidade distante, feita de som, de cheiros, de paisagens insólitas – tão sublimes de tão musicais, tão etéreas quanto imaginadas. Tão argentinas quão piracicabanas.

 

Alê Bragion é editor do Diário do Engenho.


(Publicado na Tribuna Piracicabana em 2o de junho de 2013).



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